A Moral e a Consciência. Que venha 2012!

Dezembro 18, 2011 at 5:48 am (Literatura) (, , , , )

Trecho do livro “Valores. O Bem, o Mal, a Natureza, a Cultura, a Vida”- Francesco Albertoni (Editora Rocco – Rio de Janeiro – 2000). Página 16:

…“Podemos pretender que haja um ponto de observação mais alto, um rochedo do qual observar o correr do rio? Ou estamos inexoravelmente imersos no fluxo e podemos apenas ver e aceitar as ondas da corrente que nos abate e nos arrasa? E devemos crer que não exista nenhum progresso, nenhuma meta, nenhuma coisa nobre ou sublime, nenhum tribunal a que apelar para haver justiça? E a moral que nos pede amor, paz e benevolência é uma piedosa ilusão, um devaneio para fugir do sofrimento? Para se afastar da lúcida consciência da solidão, da dura necessidade de competir que, ao contrário, é a própria essência da vida e da evolução? Uma moral que, por sorte, não seguimos, que não levamos a sério porque significaria a nossa condenação em um mundo em que se impõem e vencem somente a astúcia, a luta, a violência e o ardil?

          Ou não é verdade, nunca foi verdade? Porque, como anunciam Pitagoras e Mahavira1, Sócrates e Jesus Cristo, o homem é emancipado da natureza. Tem livre-arbítrio e tem dentro de si a aspiração por um mundo perfeito, por um ideal de harmonia e de paz que constitui a sua meta final. A essência do homem, a sua especificidade e a sua força não são nem a adaptação nem a luta pela sobrevivência, mas sim o sonho de uma vida superior. A moral como ímpeto vital, a moral como espírito, como tendência para o alto, como transcendência de si mesmo.

          O que é moral? Uma concepção nos diz que ela não tem autonomia, porque é apenas uma das manifestações, um dos estratagemas da seleção natural. Nós estamos condicionados, determinados, pensamos em projetar o futuro em termos culturais e espirituais, mas somos apenas lacaios de nossos genes que nos fazem inteligentes e sociáveis para prolongar a sua sobrevivência.

          A outra concepção, aquela que deu origem a nossa civilização, nos diz, por sua vez que a moral se opõe às leis naturais da evolução, molda-as, dirige-as ou, como queriam Schopenhauer e os gnósticos, tenta logo derrubá-las.

          Mas existe uma terceira solução. Que sejam verdadeiras ambas as posições, que a natureza humana seja constituída desse desencontro irremediável, dessa oposição sem fim. E que seja exatamente essa, no homem, a realidade da evolução. A moral é, a um só tempo, expressão de evolução e oposição a ela, continuação e destruição2. Porque a continuação advém apenas da destruição, da negação como um pulo à frente, um salto evolutivo. Porque a evolução não é só adaptação, mas também ruptura, inovação, expulsão, utopia. E por isso, xeque-mate, nova expulsão, empurrão para o novo, o mais alto, o sublime.

          Há um único processo, que se desenvolveu no curso de milhões de anos, o processo evolutivo que produziu a natureza animada. E essa natureza animada, já desde os seus albores, desde a molécula, desde o protozoário, tem estado em tensão para o alto, em ruptura consigo mesma, em superação. Com a cumplicidade do homem e da consciência, esse processo se fez cultural. A evolução contínua como cultura, como ciência. O ser humano teve que se destacar da natureza, de se contrapor a ela, de sonhar com uma pátria espiritual para progredir. Mas essa pátria espiritual brotou, ela própria da evolução.

          Nessa nossa fase histórica, o homem começa a se reconciliar com as partes da natureza que tinha recusado, de que se havia destacado, e as compreende, reencontra-as em si mesmo. Adquire consciência da sua unidade com o mundo. Nós estamos entendendo que o mundo, a natureza, não é só a nossa casa, mas, acima de tudo, o nosso corpo. E para nos conhecermos a nós mesmos devemos hoje resolver o nosso fundamento de vida. Talvez porque a espécie humana esteja para dar um novo salto evolutivo à frente. Ou melhor, é a natureza que está para dar um novo salto à frente, por nosso intermédio. E a moral, a reflexão moral, é parte desse processo, como a ciência, como a tecnologia, como a manipulação genética.

          Hoje vivemos a experiência de uma nova aliança com a natureza. Sentimo-nos parte da evolução. Estamos quase tentados a nos abandonar ao seu inexorável fluir, porque a evolução acontece pela oposição de um ideal ao existente, pela escolha contínua, pela criação das metas.

          A moral é sempre um observador no exterior, é sempre um julgar do exterior. Ela é o modo pelo qual a própria natureza se julga “do exterior”, se transcende. Cada indivíduo de per si, então, cada indivíduo que se sente determinado, arrastado como um graveto numa corrente infinita, não só pode, mas deve julgar “do exterior”. Nós estamos no mundo, somos parte do mundo, o nosso corpo é o mundo. E ao mesmo tempo como indivíduos, somos “lançados ao mundo”. Nós somos a “consciência do mundo do exterior”. A natureza conta apenas com os indivíduos, para se julgar, para se ver, para se programar, para querer, para sonhar. O indivíduo é irredutível para o mundo. A experiência que temos da dor, da injustiça, da estupidez, do erro, nos impõe responder como se a responsabilidade fosse toda nossa.

1 Mahavira

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Estátuas de dois Tirthankaras: o Mahavira (à direita) e Rishabhadeva (à esquerda)

Vardhamana, mais conhecido como Mahavira (traduzido do sânscrito, significa “Grande Herói”) foi o último dos 24 Tirthankaras do jainismo. Numa perspectiva histórica, é considerado o fundador ou reformador deste sistema religioso. Segundo a tradição jaina, teria nascido em 599 a.C. em Kshatriyakundagrama, na Índia e falecido no ano de 527 a.C., em Pavapuri, embora alguns académicos considerem que as datas 540 a.C – 470 a.C. sejam mais correctas.

[editar] Biografia

Mahavira pertencia à casta guerreira (kshatriya), sendo o seu pai, Siddharta, o líder de um clã e a sua mãe, Devananda, pertencente à casta dos brâmanes; outras tradições apresentam outros nomes para a sua mãe, como Trishala, Videhadinna ou Priyakarini, colocando-a na casta guerreira.

A narrativa afirma que o Mahavira vivia num ambiente de luxo que mais tarde abandonou, num relato que se assemelha ao da vida do Buda, do qual se julga ter sido contemporâneo. Estes dois homens viveram numa época em que as práticas religiosas tradicionais começavam a entrar em crise; em particular, o sacrifício de animais e o sistema de castas eram postos em causa e quer o Mahavira, quer o Buda, rejeitaram-nos.

Por volta dos trinta anos, Mahavira deixou a sua vida confortável para se entregar a práticas ascéticas na esperança de alcançar a iluminação espiritual. Durante um ano, usou roupa, mas, depois, passou a andar nu, deixou que insectos o atacassem, sofreu ataques físicos e verbais, dormiu em locais inóspitos, praticou jejuns extremos, num período total de doze anos. Teve, também, particular cuidado em não fazer mal a qualquer forma de vida, desenvolvendo assim a teoria do ahimsa ou não-violência. O Mahavira dedicou as seguintes décadas da sua vida a ensinar às pessoas as suas doutrinas.

[editar] Ensinamentos

Mahavira ensinou que os humanos podem libertar-se das partículas que se agregam às suas almas, uma crença do jainismo actual, seguindo uma vida de ascetismo extremo. A tradição afirma que ele recomendou aos seus adeptos que tomassem cinco votos (mahavratas), que são os seguintes:

  1. Ahimsa – não causar mal ou sofrimento a qualquer ser (não-violência);
  2. Satya – evitar a mentira;
  3. Asteya – não se apropriar do que não foi dado;
  4. Brahmacharya – não faltar à castidade;
  5. Aparigraha – não se apegar às posses materiais, não ter apego pelas coisas mundanas.

O Mahavira faleceu aos 72 anos, tendo os seus seguidores organizado a religião jaina nos seus moldes actuais.

Fonte: Wikipedia

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mahavira

2 Discussão sobre este trecho também se encontra na peça “Alma Imoral” de Clarice Niskier

 

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